POR UMA SUSTENTABILIDADE INSPIRADORA

05/01/2021

POR UMA SUSTENTABILIDADE INSPIRADORA, POR UMA SUSTENTABILIDADE INSPIRADORA

Uma reflexão que vai muito além de questões ambientais.

Ao longo destes últimos 20 anos, desde quando comecei a acompanhar o tema da sustentabilidade, tenho visto este assunto crescer em relevância e familiaridade na nossa sociedade.

Há 20 anos, quando começamos a dar luz para a palavra sustentabilidade na comunicação das marcas era muito comum enfrentarmos reações do tipo: “ninguém sabe o que isso quer dizer”, “isso é um palavrão, as pessoas não vão entender”, ou seja, uma resistência e uma preocupação muito maior com a estética, que com o significado. Esse era o desafio da época, que, em parte, se mantém até hoje. Ainda é necessário esclarecer para a maioria das pessoas que a sustentabilidade vai muito além das questões ambientais.

Desde então, tenho acompanhado o esforço de pessoas e organizações para dar clareza ao conceito do “triple bottom line” (social, econômico e ambiental), bem como sobre a urgência de mudarmos nosso modelo mental e o comportamento para começarmos a corrigir as pegadas deste nosso estilo de vida insustentável para ingressarmos em uma nova jornada – mais equilibrada e interdependente.

Apesar dos negacionistas, que continuam suas cruzadas ignorando as mudanças climáticas, priorizando ganhos financeiros, em detrimento do bem comum e do futuro das gerações dos nossos filhos e netos, temos acompanhado também o crescimento de questionamentos sobre o modelo econômico linear e dos alertas para temas como crise hídrica, degradação dos mares, desmatamentos e queimadas, desigualdades sociais e raciais, diversidade, segurança alimentar e energia renováveis, apenas para destacar alguns exemplos dos aspectos que precisam ser tratados para evoluirmos na direção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável.

É verdade que se compararmos o cenário atual com a condição de 15, 20 anos atrás encontraremos avanços significativos, mas ainda estamos muito aquém do necessário para corrigir a rota deste barco que continua navegando na direção das rochas.

Entendo que esta tal correção de rota passa necessariamente por limitar, regular e principalmente reinventar. Limitar e regular porque é necessário frear os efeitos deste consumismo inconsequente e irresponsável, pois não podemos ter a expectativa de que a nossa sociedade acordará e amadurecerá a tempo de corrigir as distorções provocadas pelo modelo vigente nos últimos 40, 50 anos.

Gostaria de dedicar este espaço para falar sobre a necessidade e oportunidade de nos reinventarmos. Necessidade porque não adianta apenas limitar e regular sem oferecer alternativas. É ingenuidade acreditar que as pessoas, em geral, aceitarão simplesmente abrir mão do bem-estar e satisfação com as quais se acostumaram, sem lhes oferecer alternativas mais sustentáveis. Um bom exemplo é a questão da mobilidade. Quem abriria mão do seu automóvel (movido a combustível fóssil) sem a alternativa de um veículo movido a energia limpa e renovável, ou no mínimo, de uma rede eficiente de transporte público? Pouquíssima gente, não é mesmo?

Nesta linha, entendo que a sustentabilidade é também uma fonte de inspiração poderosíssima para inovações que buscam o equilíbrio de variáveis ambientais, sociais e econômicas. Se nos desafiarmos a criar a partir da compreensão da interdependência entre essas três variáveis já estaremos, de cara, nos descolando do modelo que nos trouxe até aqui, que privilegiou o econômico ignorando os impactos ambientais e as distorções sociais geradas para produzir, comercializar e distribuir bens e serviços.

Quando olhamos para a beleza dos efeitos de abordagens inspiradas pela sustentabilidade fica muito claro que existe saída e que o caminho para esta saída pode ser muito mais significativo para cada um de nós. Não se trata apenas do produto ou serviço, mas também de todo o processo: desde a sua concepção até o seu consumo e destinação. É possível e desejável que todo este processo seja concebido de tal forma que os seus impactos sejam positivos, ou no mínimo mitigados e reduzidos.

A economia circular, este termo que vem ganhando cada vez mais eco nos últimos tempos, nos desafia a desenhar produtos já pensando na próxima vida que os seus componentes poderão assumir depois do seu uso. Nos desafia também a buscar soluções para uma logística reversa que favoreça a reciclagem dos diversos materiais utilizados pela indústria. A matéria-prima reciclada pode e deve ser ressignificada como alternativa para reduzir o uso de matéria-prima virgem. Mas para isso, a indústria precisará se engajar nesta jornada e uma das formas mais eficientes para acelerar esta transformação é educar o consumidor para trazer a sustentabilidade como critério de escolha por marcas e produtos, ou seja, cabe inovação também na forma como comunicamos e atraímos mais pessoas para engrossar este movimento.

Na agricultura, novos olhares para o capim criaram sistemas de manejo que utilizam esta planta, até então considerada “daninha”, em instrumento para recuperação da vida do solo, que permite reduzir a carga química, tanto de fertilizantes, quanto de defensivos, e ainda aumentar a produtividade do campo, reduzindo a pressão por aumento de área produtiva e abertura de novas fronteiras agrícolas. Uma alternativa que só pode ser concebida a partir do momento em que a agricultura se dispôs a aprender com a própria natureza.

Ainda no tema da agricultura e alimentos, algumas fazendas urbanas, que ajudam a aproximar a produção do consumo, foram além da hidroponia e começaram a adotar a aquaponia que permite produzir vegetais e peixes na mesma estrutura. Uma combinação que utiliza os dejetos dos peixes na nutrição dos vegetais.

No tema da água, podemos encontrar exemplos muito inspiradores no documentário “Brave Blue World – A Crise Hídrica”. Uma delas, a Majik Water, um equipamento de baixo custo criado por Beth Koiji, no Quênia, transforma a umidade do ar em água potável. E quando falo sobre a beleza das soluções sustentáveis não me refiro apenas ao acesso à água pura (que já é algo grandioso), mas também de como esta solução permitiu às crianças, que antes passavam o dia caminhando para buscar água, voltar às escolas.

A inovação orientada pela sustentabilidade pode também alterar de forma nuclear os critérios de alocação de recursos por Fundos de Investimentos. Como a BlackRock, que reconheceu o risco climático como uma variável prioritária na formulação de suas estratégias de investimentos. Para ilustrar esse fenômeno, transcrevo um trecho da mensagem de Lawrence Fink, fundador e chairman do Fundo, dirigida aos CEOs das empresas de capital aberto:

“Em carta enviada hoje aos nossos clientes, a BlackRock anunciou uma série de iniciativas para posicionar a sustentabilidade no coração da nossa estratégia de investimento. Estas incluem: fazer da sustentabilidade uma parte integrante da construção do portfólio e da gestão de risco; desinvestir daqueles com alto risco de sustentabilidade, como os produtores de carvão para termoelétricas; lançar novos produtos de investimento que filtrem os combustíveis fósseis; e fortalecer nosso compromisso com a sustentabilidade e a transparência em nossas atividades de gestão de investimentos.”

Considero este ato como um marco na nossa história, pois traz materialidade para a sustentabilidade no mercado financeiro. O discurso saiu do papel e se transformou em critérios claros para alocação dos recursos dos clientes de um dos maiores fundos do mundo. Um sinal claro de como estes gestores enxergam risco e valor na perspectiva do tempo. Impossível que CEOs e membros de Conselhos de Administração ignorem uma mensagem tão eloquente.

Outro movimento muito importante, que também pode inspirar pessoas, governos e empresas na busca por alternativas que ajudem a transformar a nossa sociedade para melhor são os ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mas que vou deixar para as próximas oportunidades.

Tenho 55 anos e faço parte da geração que instalou esta sociedade de consumo exacerbado, da qual também surgiram as primeiras vozes de alerta para o quadro de destruição e desigualdades no nosso planeta e sociedade. Sinto-me na obrigação de me engajar nesta jornada. Como profissional de estratégia, com um largo histórico no mercado de comunicação, entendo que a significação da sustentabilidade, dentro de uma agenda positiva e como fonte de inspiração, será fundamental para atrairmos e sensibilizarmos cada vez mais pessoas.

Chegamos a um ponto em que a sustentabilidade se transformou em um dever.

Mas também pode ser um poder. O poder das possibilidades para resgatar a sustentabilidade da nossa espécie neste planeta.


Fabio Seo, Consultor de Estratégia e Branding e Mentor


REFERÊNCIAS:

Links diversos

Triple Bottom LIne:
https://www.economist.com/news/2009/11/17/triple-bottom-line
https://rockcontent.com/br/blog/triple-bottom-line/

Majik Water:
https://www.youtube.com/watch?v=19UCU6PS3TU (only in english)

Aquaponia:
https://eatupwardfarms.com/
https://issuu.com/renatoinacio/docs/aquaponics

Capim:
https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1022418/1/ILPFcap18.pdf

ODS:
https://brasil.un.org/pt-br/sdgs
https://pactoglobal.org.br/ods/

Blackrock:
https://www.blackrock.com/br/larry-fink-ceo-letter?cid=ppc:blk_pirtlinsti_ceoletter:google&gclid=CjwKCAiAkan9BRAqEiwAP9X6UZs1uEexw-S2kKu4CsAmTPQdAgUWqjOsszRKr5Kvd-QnowjQDJDOiBoC_TYQAvD_BwE&gclsrc=aw.ds

Economia Circular:
https://www.ecycle.com.br/2853-economia-circular.html

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